A Usina Hidrelétrica de Itaipu, responsável por uma parcela significativa da energia consumida no Brasil, passa a ocupar um novo papel no cenário energético internacional. Mudanças recentes nas regras do tratado entre Brasil e Paraguai abriram caminho para que o país vizinho comercialize livremente sua parte da energia produzida, o que pode trazer impactos diretos para a economia brasileira a partir de 2026.
Firmado em 1973, o Tratado de Itaipu estabeleceu que a energia gerada seria dividida igualmente entre Brasil e Paraguai. Como o consumo paraguaio sempre foi inferior à sua cota, o excedente era vendido exclusivamente ao Brasil, a preço de custo, sem fins comerciais. Esse modelo garantiu, por décadas, energia abundante e barata para o mercado brasileiro.
Esse cenário começou a mudar após a renegociação do Anexo C do tratado, concluída em 2023. Com as novas diretrizes válidas entre 2024 e 2026, o Paraguai passou a ter autonomia para vender sua energia no mercado livre, deixando de ser obrigado a fornecer o excedente exclusivamente ao Brasil.
A mudança ocorre em um momento de forte crescimento da demanda global por energia, impulsionada principalmente pela expansão de data centers ligados à inteligência artificial, computação em nuvem e mineração de criptomoedas. Grandes empresas de tecnologia buscam fontes estáveis e contínuas de eletricidade, característica atendida pelas usinas hidrelétricas. Nesse contexto, o Paraguai passou a atrair investimentos internacionais, especialmente de grupos ligados ao mercado norte-americano.
Com parte da energia de Itaipu sendo direcionada para novos contratos internacionais, o impacto para o Brasil pode ser significativo. A usina responde por cerca de 20% da energia consumida no país, sendo fundamental para as regiões Sul e Sudeste. A redução do excedente disponível obriga o Operador Nacional do Sistema (ONS) a recorrer com mais frequência às usinas termelétricas, que possuem custo de geração mais elevado e utilizam combustíveis fósseis.
Esse aumento no custo da geração tende a refletir diretamente nas contas de luz, por meio das bandeiras tarifárias, além de pressionar os custos da indústria e dos serviços, com potencial efeito inflacionário em cadeia.
Além das consequências econômicas, especialistas apontam impactos geopolíticos e estratégicos. Historicamente, a dependência paraguaia da venda de energia para o Brasil conferia ao país maior influência política na relação bilateral. Com a entrada de novos compradores internacionais, essa dinâmica se altera, reduzindo a margem de negociação brasileira em momentos de crise energética ou escassez hídrica.
Analistas também alertam para riscos à segurança energética nacional, especialmente em cenários de estiagem severa. Com contratos firmados no mercado internacional, o Brasil pode enfrentar dificuldades adicionais para garantir fornecimento emergencial, competindo com empresas globais que operam com contratos em dólar.
Diante desse novo contexto, especialistas defendem que o Brasil acelere investimentos na diversificação da matriz energética, em eficiência no consumo e em políticas que tornem o país mais atrativo para grandes investimentos tecnológicos. A avaliação é de que a adaptação a essa nova realidade será fundamental para evitar impactos mais severos no custo de vida e na competitividade da economia brasileira nos próximos anos.



